Moralidade no desporto!

24-05-2020

Empatia! Capacidade de compreender/sentir o que/como outra pessoa se está a sentir! Havendo empatia, há preocupação! Preocupação com o que outra pessoa está a sentir, com o seu bem-estar (simpatia).

A empatia sobrepõe-se, em determinadas situações, ao raciocínio moral, levando-nos a tomar decisões diferentes, em situações semelhantes, apenas alterando a variável "empatia". Claro que adicionando outros fatores, como punição ou justiça, ser ou não moralmente ou socialmente aceite, levará a um reajuste de decisão.

Claro que a cultura e sociedade (ambiente/pares) na qual estamos inseridos, molda as nossas crenças morais, assim como o nosso autocontrolo. É sabido que a empatia e o autocontrolo estão intrinsecamente ligados! O autocontrolo está associado ao córtex pré-frontal e junção temporoparietal direita (JTPd), que por sua vez está associado às questões de empatia e altruísmo (decisões morais). Uma JTPd mais desenvolvida apresenta comportamentos mais altruístas e menor enviesamento intergrupo, enquanto que o oposto, influencia a capacidade de raciocínio moral.

Em alguns casos, a decisão é moldada em função da probabilidade de ser apanhado, do castigo aplicado se for apanhado, ou quanto é que se pode ganhar com a "mentira"? Analisam-se estas opções (custo-benefício), e decide-se se vale a pena ou não praticar o "crime". Por um lado, queremos olhar-nos ao espelho e sentir-nos bem connosco, por isso não queremos fazer batota. No entanto, podemos fazer alguma batota, e continuar a sentirmo-nos bem! Sugere então que existe um grau aceitável de "batota". Então existem divergências morais, isto é, um nível que não podemos ultrapassar!

Dan Ariely (professor de psicologia e economia comportamental) chama a isto o "coeficiente pessoal de batota", e relata no seu TEDtalk algumas experiências realizadas no sentido de perceber os ajuizamentos morais.

Uma experiência com um grupo de alunos que eram pagos consoante o número de respostas acertadas num teste de vinte perguntas (acessíveis) matemáticas. Ao fim de cinco minutos foram recolhidos os testes, e em média eram respondidas quatro questões. Outro grupo, exatamente o mesmo processo, contudo ao fim de cinco minutos era-lhes dito para rasgar o teste, guardar no bolso, dizer quantas questões tinham resolvido, recebiam o dinheiro e iam para casa. A média passou para sete respostas!!!

Outra experiência, na Universidade Carnegie Mellon, com um grande grupo de alunos onde foi pago antecipadamente, e no final, tinham que devolver o dinheiro que não ganhassem. Aconteceu a mesma coisa. Perante a oportunidade de fazer batota, fizeram! Mas, nesta experiência, foi contratado um aluno de teatro, que se levantou logo após 30 segundos e disse: "Resolvi tudo. O que é que faço agora?" O investigador disse: "Se já terminou tudo, vá para casa." Agora tínhamos um aluno que claramente, perante todos, tinha feito batota duma forma muito óbvia, e que nada o sancionou. A questão a observar agora era "O que iria acontecer com as outras pessoas do grupo? Fariam mais batota, ou menos?"

Surpreendentemente, quando o aluno contratado era dessa universidade (uniforme), portanto do mesmo grupo, a batota aumentou. Todavia, quando usou uniforme da Universidade de Pittsburgh, a batota diminuiu.

Nesta experiência, induziu-se (eliminou-se) o problema de ser apanhado, conduzindo os estudantes a decisões morais. Se alguém do nosso grupo faz batota e nós vemos, sentimos que é mais apropriado (moralmente aceite), e enquanto grupo comportarmo-nos dessa forma. Mas, se é alguém de outro grupo, com quem não nos queremos associar (outra Universidade neste caso), de repente, a consciência de honestidade aumenta.

Um exemplo interessante sobre a empatia (ou despertar a importância dela) no desenvolvimento de novas tecnologias passiveis de ser usadas no desporto, é o caso da realidade aumentada, referida por Chris Kluwe (ex-jogador profissional de futebol americano e atual escritor), no seu TEDtalk. Chris prevê que a realidade aumentada influenciará positivamente o rendimento e espetáculo desportivo. Imaginemos uma câmara em cada canto do estádio, viradas para baixo de forma a captarem todo o campo, jogadores e bola. Agora cada jogador com um capacete (com sensores e velocímetros) dotado de uma viseira que indica todas as informações necessárias em tempo real e devidos ajustes. "Bem, imaginem que são o "quarterback", pegam na bola e dão um passo para trás. Estão à procura de alguém livre para receber o passe. De repente, um clarão brilhante no lado esquerdo da viseira mostra um adversário a aproximar-se. Normalmente, não o veríamos, mas o sistema de realidade aumentada assim o permite. Um outro clarão alerta para um colega livre de marcação e lançam a bola, mas é derrubado durante o lançamento, e a bola perde a trajetória pretendida. Não sabem onde é que ela vai cair, contudo, no visor do vosso colega, aparece a indicação exata de onde a bola vai cair. Reposiciona-se, apanha a bola e imediatamente é-lhe apresentada uma trajetória virtual no relvado, calculando as distâncias e posições dos oponentes... e corre para o "touchdown". A multidão vai à loucura, e os fãs acompanham cada passo dele, assistindo de todos os ângulos. Isso é algo que vai criar uma grande emoção no jogo. Isso vai fazer com que muitas pessoas assistam, porque as pessoas querem essa sensação! Sabemos o quanto essa tecnologia vale para as ligas desportivas. Gera receitas na casa dos milhares de milhões por ano."

Agora a empatia: esta tecnologia (Realidade Aumentada) poderá ser usada de modo a promover mais empatia entre nós! Mostrando a alguém como seria "sentir na pele" outra pessoa. Por exemplo, um professor na sala de aula, a tentar mostrar a um "atrevido" quão dolorosas são as suas atitudes na perspetiva da vítima.

É importante abordar este tema sob a perspetiva da criança, e também no contexto educacional enquanto pais, professores ou treinadores. Sara Botto aborda precisamente esta temática no seu TEDtalk. Desde muito cedo, as crianças (assim como os adultos), são sensíveis aos valores que atribuímos a objetos e comportamentos, sendo esses valores que moldam a "personalidade". A transmissão constante desses valores prossociais ou antissociais, através da comunicação verbal ("não deves roubar" ou "não deves bater em ninguém" ou "deves cumprimentar as pessoas"), ou então através dos nossos comportamentos que, especialmente as crianças, atentam e absorvem como o que é agradável, valioso e merecedor de mérito, e o que não é.

De facto, essa moldagem, essa absorção de ideais, inicia-se muito cedo no desenvolvimento humano, nos primeiros meses de vida e vai-se solidificando até ser parte de "nós" enquanto adultos.

Uma involuntária transmissão decorrente dos dias atuais, é o simples facto de pouco conversarmos com quem está ao nosso lado, porque estamos a conversar ou trocar mensagens com o outro amigo. E quando estamos com esse amigo, não lhe damos a devida atenção porque estamos agora a falar com outra pessoa. Será que privilegiamos quem não está junto de nós? Não devia ser o oposto? Não devíamos dar a devida atenção a quem está connosco, e dosear essa atenção "virtual"? E sorrir para o telemóvel em vez de sorrir para quem está ao nosso lado? Reflitamos...

Todos temos o poder de manipular o comportamento dos que nos rodeiam, através dos valores que transmitimos nas simples interações diárias. Se estamos tristes, o outro não estará aos pulos de alegria e vice-versa. Comportamento gera comportamento, portanto empatia constrói empatia!

Mas será que os valores que adquirimos nasceram connosco, ou foram modelados pelo nosso ambiente, pelos nossos pares? Aqui, sem dúvida, os pais, professores e treinadores têm um papel fundamental no desenvolvimento comportamental da criança, e o privilégio de o moldar.

Segundo a teoria de Kohlberg (1992) as fases de desenvolvimento moral dividem-se em três níveis e seis estádios.

O primeiro nível dito como "Pré-convencional", é caracterizado pela dominância dos fatores externos que ditam as normas. O primeiro estádio presente nesse nível é determinado como "moralidade heterónoma", que consiste na obediência única e exclusivamente pela obediência, e seu único objetivo é evitar a punição do poder superior das autoridades. O segundo estádio, denominado "individualismo, propósito e troca instrumental" que sugere seguir as regras apenas quando é de interesse imediato, agir de acordo com os interesses e necessidades próprias e permitir que os outros façam o mesmo.

Já no segundo nível, "convencional", traduz-se na moral da conformidade convencional, ou seja, as boas relações e a imagem pública como valores que permitem a manutenção da ordem social, sendo composto pelos estádios três e quatro. O estádio três consiste nas expectativas e relações interpessoais mútuas e conformidade interpessoal, ou seja, viver de acordo com o que é esperado pelos mais próximos ou de acordo com o que as pessoas esperam das outras num determinado papel. O quarto estádio é denominado "sistema social e consciência" que consistam em ações que busquem conservar a instituição como um todo, evitando sempre a quebra do sistema, ou seja, idealmente todos devem "remar" para o mesmo lado.

Por fim, no terceiro nível, "moralidade pós convencional", remete ao fato de respeitar as crenças morais, independentemente do nível de autoridade e das regras impostas. Dentro do mesmo, encontramos inicialmente o estádio cinco, "contrato social" que consiste na consciência das pessoas numa variedade de valores e opiniões, sendo aceites e orientados em relação ao grupo em que se está inserido, devendo ser mantidos devido ao "contrato social". O último estádio (seis) remete aos princípios étnicos universais, devendo agir segundo esses princípios e crença na validade num sentido de compromisso pessoal para com eles, mesmo que isso force a violação das leis. Poucos atingem este estádio!

Assim, de acordo com esta fundamentação teórica é importante repensar o método de ensino, bem como o contexto de aprendizagem durante a prática desportiva. É elementar entender e conhecer os alunos ou atletas para saber identificar a fase do desenvolvimento moral que se encontram, prevendo comportamentos e adequando ações e conteúdos. Por exemplo, um jovem que se encontre no estádio vê o professor como uma autoridade, e age pela obediência, uma vez que não entende o conceito de moral apenas obedece com o intuito de evitar punições. Já um jovem que se encontre no estádio três já reflete sobre a moralidade das suas ações e decisões, preocupando-se também no modo como os demais o vêm.

No estádio um por exemplo, os comportamentos antissociais provavelmente serão evitados se houver uma autoridade presente ou alguma pessoa que a possa punir, sendo mais provável que duas crianças "briguem" quando os pais não estão ausentes, uma vez que existe uma menor probabilidade de serem apanhados e punidos, ou seja, nessa fase do desenvolvimento moral, as ações baseiam-se apenas no objetivo de evitar a punição. Já um atleta no estádio três, prefere evitar ações violentas em jogos, uma vez que não é uma postura esperada nem aceitável pelo seu treinador. Já um indivíduo num estágio seis, podemos remeter a um jogador que sofre racismo por parte dos adeptos, e decide sair de campo mesmo sabendo que isso resultará na sua expulsão e não poderá retornar a jogar.

No primeiro nível, poderíamos apontar que não existem muitos comportamentos prossociais, pois o interesse é nele mesmo. Ele sabe o que é certo que é errado, mas mesmo assim persiste em fazer aquilo que lhe dá vontade de fazer naquele momento, mesmo que isso prejudique o próximo. Já um possível comportamento de antissocialização, que é o que mais fazem, podemos dar como exemplos do dia a dia : jogar o lixo no chão; não parar na passadeira; não ter um grau de empatia para poder ajudar quem precisa; entre outros. Já numa questão desportiva, poderá acontecer de desrespeitar a sinalização de um arbitro; lesionar um jogador de propósito; não respeitar uma jogada indicada pelo seu treinador.

No segundo nível, já existe uma maior conscientização com o meio e a sociedade, mesmo que seja por base de interesses. No dia a dia podemos jogar o lixo no caixote, mas para nosso o vizinho não dizer que nós sujamos a rua; paramos na passadeira, para mostrar para um amigo que pensa no outro; e por vezes podemos ter um grau de empatia, pois o outro vai ver que eu me preocupo e futuramente eu posso precisar dele. Num ambiente desportivo, poderão acontecer situações como: desrespeitar o arbitro mas de uma forma que ninguém ouça ou veja; lesionar um jogador mas depois querer mostrar que não o fez de propósito e que foram apenas as circunstâncias; fazer uma jogada ensaiada com a sua equipa, mas de uma forma em que ele seja a principal estrela, dessa jogada.

Já no terceiro nível, podemos ver o oposto do primeiro, onde a pessoa tem total consciência de tudo que faz e tenta ao máximo ser o mais correto possível. Tenta sempre ser justo e seguir os seus valores e os da sociedade ou até mesmo leis. Elas muito possivelmente estejam sempre a tentar criar estratégias, para que todos se conscientizem e se igualem em pensamentos e lutas. Em ações, jogam o lixo no caixote e o reciclam; deixam o pedestre atravessar porque é um direito dele; tem total empatia com o próximo, pois colocam-se no lugar do outro, pensam como seria se o contrário acontecesse. Na questão desportiva, seriam aqueles que respeitam as decisões dos árbitros, mesmo que ela seja contrária à sua equipa e, posteriormente, batalha para conseguir uma vantagem merecida; caso se aperceba que uma de suas jogadas irá lesionar um jogador, sai da mesma, não avançando com ela; tenta obter o sucesso de uma jogada ensaiada, com o auxilio e total participação de todos da equipa, para que, juntos, possam comemorar o feito; têm total respeito por seus adversários e não o vêm como inimigos e apenas um jogador, igual a eles; entende que num jogo um pode ganhar e outro pode perder, mas que um empate será bom para os dois.

As regras têm um papel importante no desporto e provavelmente a maioria das decisões tomadas baseiam-se nas normas prescritas. A preocupação com as consequências, restringem a ação de certa forma. Por exemplo, comportamentos agressivos num jogo podem ser penalizados. O jogo está estruturado de maneira a que todos os participantes possam a contar com oportunidades iguais e decisões justas. Esta estrutura pode-se definir como "espírito de jogo" e pode até servir de guia moral para alguns jogadores. Em conjunto com o desportivismo cria-se então a imagem do atleta ideal que exibe virtudes de bom humor, empatia e delicadeza num meio de uma competição agressiva.

Sabemos que pessoas com um maior nível socioeconómico são propicias a ter uma maior maturidade moral. Também estamos cientes que a maioria dos comportamentos humanos provêm de exemplos adquiridos no meio em que estão inseridos. Comportamentos como treinadores a discutirem constantemente e de forma agressiva com o árbitro, cânticos insultuosos por parte dos adeptos e violência entre jogadores, radicam a necessidade de vencer como forma de reconhecimento.

Para haver uma mudança de valores, esta tem de partir de cima, com o exemplo da instituição desportiva. A intervenção do treinador muitas vezes está acondicionada pelos dirigentes, que colocam grande pressão na obtenção de resultados. Esta necessidade de vencer, ganhar a qualquer custo, reflete-se no comportamento do treinador e atletas.

Não podemos pedir a uma atleta comportamentos prossociais quando tudo ao seu redor é exatamente o oposto. O papel do treinador é de extrema importância na forma de como os atletas encaram a prática desportiva. Comportamentos como serenidade na derrota e humildade na vitória, aceitar as decisões do árbitro e respeitar o adversário, incentivam o atleta a comportar-se de igual modo. De igual modo, atletas seniores e capitães de equipa também são vistos como exemplos.

A instituição deve dar espaço ao treinador para fazer o seu trabalho num ambiente sem pressões, propício ao desenvolvimento integral dos seus atletas.

Outro fator importante na implementação de "fair play" é o papel do professor de educação física. Se partirmos do princípio que nem todas as crianças praticam desportos competitivos, mas todas elas têm acesso ao processo educativo escolar, é compreendido que para muitas crianças esta é a única via para implementação de valores no desporto. Para que haja mudança são necessários novos hábitos. Craig Clifford afirma que o desportivismo esteja implementado, durante todo o processo de treino e todos os exercícios. Assim o "Fair play" é transferido para o campo como uma forma natural de ação.

"Pregar sem praticar aquilo que se prega, é melhor que nada, principalmente se formos honestos e admitirmos que não nos comportamos da forma como dizemos que nos devíamos comportar." Clifford & Feezell (2001)

Os mesmos autores apontam algumas orientações práticas, tanto para o treinador como para os atletas, para implementar o desportivismo. Ser um bom exemplo; falar sobre a relação espírito desportivo e êxito, através das consequências positivas os atletas ficam mais recetivos á implementação de "fair play"; comunicar a importância de desportivismo;

Plug (1998) sugere um conjunto de atividades com fim de desenvolvimento moral, tais como a construção de identidade moral, clarificação de valores; e a aquisição de critérios de juízo moral, através de dilemas morais.

Quanto á promoção de "fair play" para a audiência desportiva, é necessário impactar com acontecimentos tanto antidesportivos, de forma a que as pessoas se ponham no lugar da "vitima", como também acontecimentos de desportivismo que inspiram boas ações dentro e fora do campo.

A implementação de prémios desportivos para as equipas ou atletas, por exemplo: "ranking nacional fair play da Liga Portuguesa", pode ser um bom incentivo para o espírito desportivo

Uma das características do desporto é ser rica em dilemas morais ou situações de conflitos. O fato dos atletas estarem expostos a este tipo de situações, exige um equilíbrio entre os seus direitos e responsabilidades. Nestas negociações entre iguais os praticantes adquirem um entendimento profundo e respeito pelo processo de regulação social das regras. Assim os jovens estabelecem uma relação de igualdade e cooperação de forma justa.

Outra característica da atividade desportiva é ser orientada por regras, onde muita das decisões morais vingam das regras. Desde cedo os praticantes apercebem-se que as regras devem ser cumpridas e não é legitimo fazer batota. Assim as leis acabam por ser vistas como obrigação moral uma vez que todos os companheiros estejam de acordo com estas. Em casos que uma regra coloca toda a gente em desvantagem os jovens têm de ter maturidade moral suficiente para modificar ou implementar uma nova estratégia.

Na conceção de Malu, com o intuito de promover comportamentos prossociais e de fair-play é fundamental reforçar e dar mais atenção mediática, e "desvalorizar" comportamentos antissociais. Em jogos muito violentos é fundamental informar e divulgar comportamentos prossociais e de fair play em relação aos antissociais. No caso de crianças numa situação em que por exemplo um aluno omitiu a verdade e o outro foi honesto, diante das demais crianças devemos reforçar a honestidade de um deles e particularmente conversar com o que foi desonesto.

E para a promoção do fair play é fundamental desenvolver sentimentos como compaixão e empatia, bem como o conceito de justiça. Assim, são fundamentais processos psicológicos que mostrem diferentes perspetivas, assumindo papéis diferentes, como técnico, árbitro ou outros colegas.

Uma vez que como treinadores ou professores, podemos mostrar para o nosso aluno/atleta, que não vale a pena ganhar a todo o custo. Devemos o conscientizar que se não for um bom jogo, que se a vitória não foi merecida e que se seu consciente não está tranquilo, não é motivo para ele se orgulhar do resultado. Dar bons exemplos ou benefícios após fazerem jogadas limpas, poderá ser uma boa forma de incentivo a boas ações. Devemos sempre exaltar a existência delas (boas ações) e rebaixar os comportamentos considerados antissociais.

Para além de consciencializar as crianças, devemos também intervir nos pais sobre comportamentos prossociais. Quantas vezes não presenciamos ou soubemos de algum pai, que invadiu um campo por uma sinalização do juiz, que ele não concordou ou lhe dirigiu palavras de desrespeito, ou até mesmo, teve comportamentos bem mais agressivos, como ameaçar alguém por algo que aconteceu durante o jogo, contra o seu filho ou contra a equipa do seu filho. A verdade é que, por vezes, o comportamento agressivo ou sem consciência feitos dentro de campo, vêm incentivados por alguém que o jogador tem estima, seja seu técnico ou seus familiares.

Um desses bons exemplos que podemos amostrar, a partir do artigo do Pedro Portugal é sobre o professor Moniz Pereira, em que ele se refere como: "um enorme exemplo de boas práticas no Atletismo, que conseguiu que diferentes gerações de atletas fossem norteados pelas condutas da ética no desporto, onde os valores do respeito pelo adversário e fair play foram implementados e alcançados com sucesso. Assim, consideramos que o seu "testemunho" de esforço, honestidade e perseverança irá ser perpetuado ao longo do tempo". São exemplos de pessoas assim que devemo-nos ilustrar e guiar, para que nossos atletas têm as virtudes e valores certos sobre o jogo e sobre o desporto.

Assim como os exemplos anteriormente referidos, de alguma maneira demonstrar que um determinado atleta, ao agir de forma honesta, vai inspirar gerações futuras. E que posterior a isso, tornar-se-á um modelo para eles, caso contrário, não obterá o devido sucesso e admiração.

Demonstrar que as frases "quem joga com fair-play perde quase sempre" e "tudo o que o arbitro não vê é legal", não é um modelo que devemos seguir. Ao termos esses pensamentos pequenos e errados, seremos sempre taxados e apresentados como aqueles jogadores que pensam apenas naquele jogo e não na sua carreira.

Karine acredita que, em categorias de desporto como por exemplo, no futebol, o jogador que teve um maior número de comportamentos prossociais e de fair-play, ganhasse um prêmio destaque. Assim como já existe o "melhor jogador da partida", ter o "melhor fair-play do jogo". Talvez com isso, fossem mais valorizadas as boas ações e incentivasse o aparecimento delas, em todos os jogos e campeonatos.

O desporto tem papel fundamental para o desenvolvimento moral de um indivíduo. Durante a prática desportiva, o mesmo acaba por enfrentar obstáculos, seja nos treinos ou nas escolhas que tem que fazer para se manter ao melhor nível. Ser resiliente e possuir autocontrolo é fundamental, ultrapassar todas as adversidades e emoções, porque não vai ganhar sempre, nem desenvolver todas as competências na primeira tentativa. É uma batalha diária.

Além do fato de ser fundamental desenvolver o autocontrole, principalmente se relacionado com as suas em competições, seja com o adversário, com o seu técnico e companheiros de equipe. Bem como desenvolver a capacidade de cooperação com os seus companheiros de equipe, além de aprender a lidar constante com vitórias e derrotas, conquistas e frustrações.

Além disso a ideia do desporto está diretamente associada aos conceitos de liberdade e justiça. Assim sendo, a prática é uma opção livre e as regras dentro da prática são iguais para todos os seus participantes. Contudo, atente-se que o desporto também pode culminar em efeitos contrários aos desejados, uma vez que atitudes com uma grande ênfase em ações competitivas promovem comportamentos antissociais, que acabam por muitas vezes serem as mais divulgadas pelos média, como histórias de escândalos, violência, abuso de drogas e corrupção.

Assim, concluo que o desporto não constrói automaticamente carácter, depende dos contextos e das interações sociais no qual ele está imerso.

É evidenciado, que hoje em dia é pouco valorizado, pouco explorado e pouco beneficiado, aquele que detém de boas ações na área desportiva. Esquecemo-nos, que não são simples jogadores, que eles têm que fazer tudo em função do jogo, mas são sim pessoas como nós. E assim como nós, devem sempre ter valores e respeitos em campo.

O desporto por si só, já passa algumas atribuições ao desportista, como por exemplo, horários, regras, rotinas de treino e amadurecimento, onde através desses ensinamentos, de alguma maneira, já estaremos a influenciar uma moral e ética ao nosso aluno. Se um atleta, sempre tiver um indicador ou um conselheiro, para guiá-lo para os bons valores, ele obterá sucesso. No entanto, mesmo tendo tudo isso a seu favor, caberá apenas ao atleta decidir as ações que quer praticar.

Nós, como treinadores, e em conjunto dos nossos atletas, equipa, criamos uma família. Ao longo do tempo e de alguns treinos juntos, saberemos as fraquezas e habilidades de cada um. Nesse aspecto, juntos podemos nos tornar mais fortes, com a ajuda uns dos outros. Como equipa, em determinados aspectos que um não domina tanto, em relação ao outro, nos apoiamos e ajudamos, dessa forma, a cooperação entre eles já é um elemento que colocamos em prática.

Com relação ao espírito de justiça e respeito, deveremos também trabalha-los com nossos atletas. Em um jogo amistoso, podemos proporcionar um ato de injustiça, para que isso cause certa revolta nos jogadores, mostrando-lhes que é assim que o outro se comportará caso eles acometam algo semelhante. Nisso, devemos mostrar sempre os valores que devem ser levados mais em consideração num jogo, compartilhando sempre do sentimento de reciprocidade de nossos atos.

Caso todos os atletas fossem assim, o mundo desportivo, seria um ambiente mais tranquilo e sem tantas oposições. Se assim fosse, não iriam precisar criar ou modificar sempre as regras, pois com os devidos valores e respeito, não haveria tantos conflitos.


Referências

TEDtalk - Chris Kluwe | How augmented reality will change sports ... and build empathy (2014)

TEDtalk - Dan Ariely | Our buggy moral code (2009)

TEDtalk - Sara Valencia Botto | When do kids start to care about other people's opinions?

https://www.futeboldeformacao.pt/2017/01/20/a-comunicacao-do-treinador-no-futebol-de-formacao/

https://www.pned.pt/media/42457/%C3%A9tica-no-desporto-ou-desporto-com-%C3%A9tica-vers%C3%A3o-otimizada-1-.pdf


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