Aprendizagem social e agressão
MODELOS DE COMPORTAMENTO
"A melhor forma de educar uma criança é o exemplo, as
palavras passam, o exemplo fica."
De facto, crescemos absorvendo os comportamentos dos que nos rodeiam, ou seja, a aprendizagem profunda é desenvolvida com base na observação do comportamento e da constatação das consequências das ações de outras pessoas.
As crianças observam como reagem os mais próximos, tando nas experiências positivas como nas menos positivas, tornando-as parte de si, na resolução de conflitos posteriores.
Os pais têm o maior superpoder de todos: O Exemplo! O modelo mais poderoso na vida de qualquer criança são os próprios pais. Através da observação direta, aprendem o melhor e o pior: observam, imitam comportamentos, ações, valores, crenças e até mesmo expressões (o vídeo "criança vê, criança faz", adicionado no final do post, reflete exatamente estas palavras)!

Nos primeiros anos, os filhos admiram os pais como se fossem os melhores do mundo, o que é extremamente positivo quando aproveitado para transmitir os valores corretos, que orientarão toda a sua vida. Através das suas ações, palavras e comportamentos, poderão orientar os filhos na direção pretendida. Obviamente, as imperfeições também serão absorvidas.
As chamadas de atenção e os castigos são importantes quando eles agem de forma incorreta, mas as atitudes positivas devem ser as mais valorizadas, para que eles percebam que ação gera reação e que os seus comportamentos têm consequências, mais ou menos boas.
Ensinar a assumir responsabilidades pelos próprios comportamentos, escolhas, ações, pensamentos e sentimentos, fará de certa forma, que se auto ajuízem e/ou criem empatia pelos demais.
Entretanto, surge o desafio dos pares e do ambiente social e educativo onde se encontra, que facilmente tenta desviar, daquilo que se entendo por correto, aceitável e adequado.
Neste contexto, destaca-se o papel do professor e/ou treinador, que será a figura externa com mais relevância para a criança, sendo visto como "modelo" a seguir, ou alguém a quem podemos "beber do seu sumo e da sua doutrina". Estes além de ensinar, têm a responsabilidade acrescida de educar, sendo, à semelhança dos pais em casa, uma figura de onde retiram "exemplos", sejam bons ou menos bons, daí a importância da postura firme e adequada, das decisões acertadas e justas, e da correta transmissão de valores e ensinamentos.
APRENDIZAGEM SOCIAL
A aprendizagem social traduz-se na capacidade de reproduzir um comportamento observado. Este tipo de aprendizagem distingue-se de outros tipos de aprendizagem por assentar na imitação e, portanto, no fato de que sem ela tais comportamentos dificilmente seriam apreendidos.
A Teoria da aprendizagem social, (também conhecida como Teoria Social Cognitiva) proposta por Albert Bandura, baseia-se na premissa de que a Aprendizagem pode ocorrer através de experiências diretas, isto é, através de experiências e modelos de observação do comportamento de outros indivíduos e das "recompensas" que estes recebem, podendo reforçar ou inibir os seus próprios comportamentos.
Existem quatro processos cognitivos que podem estabelecer a influência dessa aprendizagem que são a atenção, a retenção, a reprodução motora e o reforço.
No processo de Atenção, existe uma observação atenta do modelo (normalmente de admiração), permitindo uma aprendizagem de acordo com atitudes e comportamentos atraentes e frequentes, havendo variáveis que aceleram ou atenuam esses "ensinamentos", como a intensidade do estímulo, a relevância, a novidade ou a influência de frequência, mas sobretudo da importância concedida pelo observador (motivação).
A Retenção, trata-se de um processo relacionado com a memória, permitindo que determinada ação seja realizada, mesmo na ausência do modelo. Pretendendo transmitir e reter algo positivo, será necessário retornar à observação do modelo, uma vez que tal comportamento não foi suficientemente absorvido.
Segue-se o processo de Reprodução Motora, que consiste na execução do comportamento percebido (ação assimilada), associado à auto-observação e autoavaliação.
Por último, o processo de Reforço é aquele que está relacionado com a razão e recompensas, e onde os comportamentos positivos devem receber mais atenção e ser adquiridos e desenvolvidos com maior frequência.
Esses modelos poderão ter designações de observações "ao vivo", na presença da criança; através de instruções verbais, por meio de relatos, pessoais ou não (ex. youtubers e influencers); ou de origem simbólica, através da televisão, videogames, livros, etc.
IMPORTÂNCIA
Dependendo de algumas características como idade, género, estatuto, proximidade, afetividade, valor funcional, prevalência e complexidade de comportamentos, a assimilação por parte da criança será maior ou menor. Contudo, tanto para o certo como para o errado, com maior ou menor facilidade, essa informação será adquirida.
A partir dos 5/7 anos, as crianças estabelecem maior afetividade pelo progenitor e pares do mesmo sexo (modelos), no entanto atentam aos comportamentos destes com o sexo oposto. São incentivadas a comportamentos associados ao género e assimilam esse estereotipo.

Outra questão relevante é que os pais tendem a reforçar comportamentos que creem ser "apropriados" para determinado género, levando a que crianças, a partir dos dois anos acabem por se identificar, desenvolvendo preferências por atividades e brinquedos "típicos" do género, tornando-se um processo cada vez mais imposto e menos uma consciência própria do indivíduo.
Ainda sendo, as características do modelo são fundamentais, uma vez que refletem a qualidade e quantidade de atenção que o mesmo irá receber, norteando os valores e comportamentos da criança.
COMPORTAMENTOS INADEQUADOS
Todos os comportamentos são observados, e adquiridos pela criança, independentemente de adequados ou não. Nesse sentido, devemos evitar a todo o custo "gestos" reprováveis, sabendo de antemão que irão influenciar negativamente o conjunto de valores da criança.
Tal é verificado na experiência "Bobo Dolls" (Bandura, Ross & Ross, 1961) onde crianças que observaram um modelo agressivo acabaram por reproduzir comportamentos agressivos e por vezes ainda mais agressivos. As raparigas na condição agressiva usam mais respostas físicas agressivas quando o modelo era homem, mas mais agressão verbal quando o modelo era mulher, e os rapazes tendiam a imitar mais modelos do mesmo género do que as raparigas. Mais tarde, num estudo semelhante com recurso a vídeo, obtiveram-se resultados idênticos (Bandura, Ross & Ross, 1963), demonstrando a irrelevância do tipo de observação, enfatizando somente o comportamento dos modelos.
Assim, fica evidente que as condições ambientais e sociais acabam por ser um fator determinante que "ensina" a criança a ser agressiva, seja pela observação ou por reforços diretos ou vicariantes das suas ações. Esses reforços acabam por incentivar a ações inadequadas, como observado.
Perto de uma criança, todos nos tornamos um modelo, ainda mais se formos admirados, devendo não só dizer o que é certo ou errado, mas sobretudo, demonstra-lo com ações.
CUIDADOS
Os pais terão a maior responsabilidade para proporcionar uma aprendizagem mais cuidada uma vez que, inicialmente, em condições normais, passam mais tempo com a criança. Têm de ser um exemplo constante sem contradições (um progenitor diz uma coisa, e na sua ausência, o outro terá de manter a decisão), com o dever de evidenciar o correto do errado, não somente por palavras, mas sobretudo por ações.
Neste contexto é crucial que pais, professores ou treinadores percebam que são exemplos (modelos), em constante observação, e que as suas atitudes e comportamentos irão refletir-se nas atitudes e comportamentos da criança, enquanto filho, aluno ou atleta.
Por exemplo, dar um presente ou um doce depois de uma birra, apenas vai reforçar à criança que aquele comportamento culmina com uma "vitória". Ou um atleta que, propositadamente, comete uma falta para impedir que o adversário conquiste uma vantagem, e o treinador elogia ou enfatiza o sucedido.
Temos de ser compreensivos perante os erros que a criança possa cometer. Isso não quer dizer, que devemos aceitar tudo. Bem pelo contrário, devemos mostrar que está errado, criar empatia, e fazer perceber esse ponto de vista, sem nunca demonstrar raiva extrema, falta de autocontrolo ou a noção dos atos, pois poderá acarretar uma série de transformações e situações, que serão prejudiciais, para a sua própria estima e estima dos outros, sejam eles seus colegas ou não.
Isso leva-nos a pensar, que apesar de uma criança nascer totalmente meiga, simpática e amiga, o meio e a sociedade em que participa, transforma-a noutra pessoa, ou seja, as circunstâncias levaram-na a esse tipo de comportamento.
Um fator importante que os pais devem ter em conta é uso dos media, nomeadamente a televisão e videojogos. A violência é o que dá notícia e audiência, sendo amplamente enfatizada. Desenhos animados onde a violência e comportamentos antissociais predominam. Videojogos como "Call of Dutty" ou "Fortnite" são jogos de guerra populares, que têm como ação principal a violência com e sem armas. A constante interação da criança com o efeito gratificante através da violência pode facilmente ser transferido para realidade, servindo de incentivo a ataques ou massacres.

ESTRATÉGIAS
Professores e treinadores, devem adotar um conjunto de medidas que visem moldar a criança com valores adequados e sociais, promovendo e enaltecendo os comportamentos corretos, e arranjando forma suave e apelativa de alertar e contornar eventuais problemas. Estes podem advir de casa, do ambiente ou pares, cabendo também a estes, identificar a origem e intervir no sentido de requalificar a criança.
Um professor ou treinador, não tem que educar uma criança, mas pode tentar pegar nos melhores valores da criança, e mostrar-lhe a quão boa ela pode ser com aquelas virtudes.
Para facilitar todo este processo, é fulcral que tanto professores como treinadores, projetem-se como exemplos a seguir, e que entendam que cada ação terá uma consequência, repensando cada gesto ou atitude, desde o estilo de vida (alimentação, hábitos saudáveis).
Premiar ou elogiar um esforço (reforço positivo), ainda que com resultado menos significante, atribuí um valor muito positivo ao desempenho da criança, entusiasmando a querer ser melhor ou atingir melhores resultados.

São exemplos reforçar apenas os alunos que conquistem as notas mais elevadas independente do meio, ou premiar esforços ao longo do processo; ou então, em jogos e competições, incentivar à vitória a qualquer custo, mesmo com comportamentos inadequados, ou conceitos de justiça e fair-play mesmo que não culminem necessariamente na vitória.
É fundamental perceber que esses comportamentos "copiados" não se limitam a ambientes como a sala de aula, o campo ou a quadra. São valores que o mesmo carregará consigo, impondo-se na resolução de problemas ou conflitos que se lhe deparem, tratando-os de uma forma saudável e adequada ou agressiva e antissocial.
E aqui, é de salientar que, muitos jovens usam escola ou a instituição desportiva para se refugiarem, sendo extremamente importante envolver estas crianças de uma forma especial, tornando-lhes esses momentos gratificantes, com a espectativa de tornar essa criança completa e feliz, como deve ser.
LIÇÃO DE UMA PROFESSORA
Antes de terminar, gostaríamos de partilhar convosco a lição de uma professora. Rosie Dutton, uma professora britânica, explicou de uma forma criativa e bem eficaz os efeitos do bullying, com apenas duas maçãs.
Por fora, as frutas eram aparentemente iguais: grandes, vermelhas, daquelas que escolhemos nos mercados. Só que, antes de levá-las para a sala de aula e sem que as crianças soubessem, a professora bateu com uma delas no chão repetidamente, mas de forma delicada.
Na sala de aula mostrou então as duas maçãs aos alunos, e pediu-lhes que as descrevessem. As semelhanças entre elas eram evidentes.
"Peguei na maçã que tinha atirado ao chão e comecei a dizer às crianças o quanto eu não gostava dela, que a achava nojenta, com uma cor horrível e que o píncaro era muito curto. E disse-lhes que, por eu não gostar dela, queria que elas também não gostassem, então deveriam insultar a fruta."
As crianças olharam para a professora admirados, mas começaram a passar a maçã de mão em mão, e cada aluno fazia um insulto à maçã. "És feia", "Cheiras mal", "Não prestas"
"Ofendemos mesmo aquela pobre maçã. Até me senti mal por ela." - referiu um aluno.
De seguida, Rosie pediu que passassem a segunda maçã de mão em mão e que todos a elogiassem: "Que maçã adorável", "A casca é bonita ", "Tens uma cor linda".
Depois a professora segurou nas duas maçãs e, em conjunto com as crianças, falaram sobre as suas semelhanças e diferenças. Aparentemente continuavam iguais.
Então, a professora cortou as duas maçãs ao meio, e a maçã elogiada era clarinha, fresca e sumarenta. A maçã insultada estava cheia de marcas, nódoas negras, e estava mole por dentro.

"Acho que as crianças tiveram uma espécie de iluminação naquele momento. Entenderam que, o que vimos no interior das maçãs representava cada um de nós quando se sente ofendido, triste por alguém nos maltratar através de ações ou palavras".
"Quando as pessoas sofrem de bullying, especialmente as crianças, sentem-se péssimas por dentro e muitas vezes não demonstram nem exteriorizam o que estão a sentir. Se não tivéssemos cortado aquela maçã ao meio, nunca teríamos percebido este efeito"
Na semana anterior, Rosie havia partilhado com as crianças uma situação em que ficou triste com as ofensas de uma pessoa.
"Nós podemos impedir que isso aconteça. Podemos ensinar às crianças que que não devemos insultar, maltratar, ou gozar com os colegas. Podemos ensinar que devemos sempre defender os colegas e não colaborar com qualquer tipo de bullying, tal como a aluna, que se recusou a insultar a maçã."
Referências
Slides aulas
Website https://uptokids.pt/educacao (30/05/2020)
